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O futebol é o reflexo da nossa sociedade

Foto: Creative commons, disponível na internet. 


Por Israel Mendonça


Estamos no mês da mulher, e a data fixa para celebração é o dia 8. Esse mês não é apenas para comemorar e dar presentes, ela também é um momento de reflexão dos diversos sofrimentos diários que as mulheres enfrentam. Em diversas áreas de trabalho as mulheres são menosprezadas, vistas como inferiores, sofrem assédio, e outros. Hoje, te proponho a refletir utilizando o futebol.


História da modalidade no país:


O futebol feminino foi praticado pela primeira vez no Brasil no ano de 1913, porém em 1941, durante o governo do ex-Presidente Getúlio Vargas, o Decreto-Lei 3.199 entrou em vigor e proibiu as mulheres de praticarem esportes. No artigo 41 da lei dizia: "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país".

Em 1965, um ano após a ditadura militar ser implementada no país, as proibições foram mais agressivas. A decisão foi expressa na CND e a deliberação número sete dizia: "Não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e beisebol".

Mesmo com essas proibições, o futebol feminino dobrava as leis através de disputas de campeonatos clandestinos. Hoje em dia a prática do esporte não é proibida, recebe apoio e incentivo ao redor do mundo. No entanto, apesar do futebol feminino ter conquistado mais direitos e visibilidade com o passar do tempo, a modalidade feminina ainda enfrenta o preconceito da sociedade.

Se compararmos o futebol feminino com o masculino a disparidade é enorme, jogadoras recebem bem menos, as competições não possuem muitos patrocinadores de peso, as transmissões dos jogos não são acessíveis para o grande público e tantas outras desigualdades. Os dois gêneros disputam o mesmo esporte, o futebol, correm atrás de uma bola por 90 minutos, são onze contra onze e, mesmo assim, as diferenças no mesmo esporte são gritantes.

Apesar da prática do futebol feminino existir desde 1913, só no ano de 1983 foi que a modalidade feminina saiu da ilegalidade, além disso somente no ano de 2015 foi que o futebol feminino recebeu o status de profissão. O futebol masculino foi oficializado como profissão em 1930. Para efeito de comparação, às mulheres conquistaram o direito ao voto apenas no ano de 1932, no governo do ex-Presidente Getúlio Vargas. 

O futebol é entretenimento e parte dessa indústria gera lucro. Neste ano o futebol feminino está completando 40 anos de legalização, sendo que a modalidade masculina possui quase 90 anos de profissionalização e nunca sofreu com a ilegalidade. Toda essa diferença contribui para a precarização do futebol feminino.


"Incentivo das entidades esportivas":


No ano de 2016, a Fifa, maior entidade esportiva do mundo, promoveu uma grande ação de valorização do futebol feminino, determinando no seu estatuto que a modalidade seria prioridade. A intenção dessa ação era incentivar mais mulheres a praticarem o esporte. A Fifa estima que até 2026, cerca de 60 milhões de mulheres estejam praticando o esporte ao redor do mundo.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2019, impôs aos clubes que disputavam a série A do Campeonato Brasileiro a formarem times femininos. A medida faz parte do Licenciamento de Clubes, documento que regula a temporada esportiva no país, a Conmebol segue os mesmos critérios deste documento para equipes que disputam a Libertadores e a Copa Sul-Americana.

Se o clube não tiver time feminino ele é impedido de disputar competições organizadas pela CBF e, consequentemente, o clube não irá disputar campeonatos internacionais realizados pela Conmebol. Isso evidencia que a formação de times e categorias de bases femininas não surgiram de maneira natural nos últimos anos, se os clubes não investissem um pouco em times femininos eles sofreriam grandes consequências esportivas.


Transmissão de partidas:


A partir deste ano, o Campeonato Brasileiro Feminino passará ser transmitido pelo grupo Globo, porém a emissora carioca irá transmitir apenas as fases finais da competição no canal aberto. A fase inicial da competição será exibida no Sportv, canal de tv fechado do grupo Globo. Além disso, o grupo poderá transmitir outras competições organizadas pela CBF, a exemplo da Supercopa Feminina e amistosos da Seleção Brasileira Feminina.

De 2019 a 2022, o grupo Bandeirantes era o detentor dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro Feminino, a Band exibiu cerca de 21 jogos por ano na tv aberta. Em 2023, serão seis jogos exibidos para o grande público, uma redução de aproximadamente 71% na quantidade de jogos transmitidos anteriormente pela antiga detentora dos direitos de transmissão.


Copa do Mundo Feminina:


Neste ano tem Copa do Mundo Feminina, diferentemente do Campeonato Brasileiro Feminino, a cobertura da Globo será maior. Os países sede da competição são a Austrália e a Nova Zelândia. A Copa terá início no dia 20 de julho.

A seleção brasileira chegará na competição após passar por um processo de reformulação. Em relação ao mundial disputado em 2019 continuam no grupo de convocadas nove jogadoras, entre elas Bia Zaneratto, Debinha e Tamires. Além disso, o mundial passou a ter 32 seleções na disputa, até a edição passada, disputavam 24 seleções.

O Brasil está no Grupo F ao lado da França, Jamaica e Panamá. O Brasil estreia no dia 24 de julho, às 8 horas (horário de Brasília), contra a seleção do Panamá.


Feito histórico na Copa do Catar:


Na Copa do Mundo Masculina realizada no ano passado, as mulheres fizeram história na televisão. A Globo transmite a principal competição esportiva do mundo desde 1970, no entanto, até a edição de 2022, a emissora nunca tinha integrado mulheres na transmissão da Copa do Mundo. 

O Catar é um país islâmico, que possui regras rígidas em relação aos costumes. Durante o "maior espetáculo da terra", os estrangeiros foram impedidos de consumir bebidas alcoólicas, as vestimentas foram julgadas, e outros acontecimentos. No mesmo ano da Copa, o Catar condenou uma mulher a sofrer cem chicotadas e a sete anos de prisão por ter denunciado um estupro. Com toda a certeza essa conquista carrega uma enorme carga de representatividade para as mulheres do Brasil. 

No canal aberto (Globo), marcaram história Renata Silveira e Ana Thaís Matos, narradora e comentarista, respectivamente. Já no canal fechado (Sportv), as pioneiras na Copa do Mundo Masculina foram a narradora Natália Lara e a comentarista Renata Mendonça. Ademais, a ex-jogadora Formiga e a jogadora Cristiane fizeram participações especiais ao longo da competição.

Apesar da imensurável conquista feminina na transmissão da Copa do Mundo Masculina no ano passado, a desigualdade entre os sexos ainda é imensa e não se restringe exclusivamente ao esporte. A conquista de mais igualdade perante os gêneros caminham em passos lentos, e esse abismo de desigualdade atinge todas as áreas da sociedade brasileira. Precisamos construir uma sociedade mais coesa em todos os âmbitos, reflita e contribua para a transformação dos costumes que possuem raízes no Brasil.











Referências:


https://leiemcampo.blogosfera.uol.com.br/2019/04/27/por-que-nao-ter-time-de-futebol-feminino-pode-tirar-clubes-da-serie-a/

https://rainhasdodrible.com/2021/06/12/a-origem-do-futebol-feminino-uma-historia-de-desigualdade/

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/copa-na-tv/invisiveis-no-catar-mulheres-fazem-historia-na-transmissao-da-copa-do-mundo-92854

https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo-feminina/noticia/2022/12/19/tem-copa-de-novo-em-2023-selecao-feminina-busca-novo-patamar-a-partir-de-20-de-julho.ghtml

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/fora-da-band-brasileirao-feminino-perde-espaco-na-globo-e-causa-reclamacao-91893

https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo-feminina/ 

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